Vou contar uma historinha meio comprida mas que vale a pena ler até o fim.
Tudo começou há mais de 11 anos atrás quando vim aqui para São Francisco Xavier e estava procurando terras para comprar.
Havia uma grande quantidade de terra para vender na serra, bem em cima da cidade, que pegava toda a face da montanha desde quase a Rua da Pedra até a fronteira com Monte Verde. Era chamada das Terras da Alemoa, porque a dona era uma alemã.
A mulher estava vendendo barato porque rezava a lenda ela tinha desmatado uma grande área e plantado pinus há muitos anos para depois cortar e ficar rica. Mas, ela não tinha conseguido autorização para o corte e a madeira estava lá há décadas e tudo aquilo então não tinha valor.
Na época, o terreno todo estava a venda por 400 mil reais e diziam que só de madeira tinha uns 900 mil.
Também na Alemoa estava a Cachoeira das Couves. A nascente e o rio que dá nome à minha rua, Rua das Couves, com uma enorme cachoeira linda. E o Rio das Couves sendo o rio que abastece toda a água da cidade de São Francisco Xavier. Ele desce a montanha e parte é desviado para a caixa d’água da SABESP para ser distribuido para todo o centro do povoado de uns 2 mil habitantes no máximo.
Bem, na época que cheguei por essas bandas havia duas abordagens para essas terras: alguém comprar para preservar ou alguém comprar para explorar a madeira que estava lá.
Eu tentei comprar para preservar.
Eu não tinha 400 mil reais, claro. Mas fiz outras propostas, apertei aqui, ali, falei com outras pessoas para juntarmos esforços mas não houve interesse nenhum de vender as terras para quem não fosse explorar a madeira do lugar.
Tempos depois, a região foi vendida para um grupo de investidores cujo representante era um senhor que veio morar aqui em São Francisco Xavier e logo virou persona non grata na cidade por ser o dono da Cachoeira das Couves e por dizer que iria explorá-la. A primeira coisa que ele fez foi fechar a cachoeira para visitantes.
Acredito que a segunda coisa que ele fez foi entrar com os processos de licenciamento para a exploração de madeiras de lá.
Para poder retirar as madeiras de uma Área de Preservação Ambiental, justamente naquele lugar, topo de morro, cercada de nascentes, nascentes que alimentam o rio que abastece a cidade, florestas com animais em extinção, corredores ecológicos e todos os contras que poderiam haver para se ter uma licença, este senhor teve que participar de processos públicos da ordem de Conselhos Gestores, ONGs, partidos políticos. Enfim, ele teve trabalho. Muito trabalho. E despesas.
Funcionários de órgão de licenciamento foram remanejados para outras cidades até. Gente perdeu o emprego, dizem.
No fim, ele conseguiu a licença para retirar a madeira da área.
Durante esse tempo todo, um grupo de pessoas da cidade esteve acompanhando todo este processo de licenciamento desse senhor. Pelo menos até onde podíamos acompanhar.
ONGs foram organizadas quase que exclusivamente para defender a área em questão.
Passeatas, protestos, reuniões, cartas, relatórios. O que puderem imaginar foi feito.
Finalmente, há poucos anos, o corte das árvores começou.
Novamente mais mobilização das mesmas pessoas que não desistiam nunca em defender a região. Sempre de forma legal (no sentido jurídico) e com sacrifício do próprio tempo e dinheiro.
Para dar um exemplo, eu pessoalmente levei no meu jipe os fiscais da Polícia Ambiental até a área da Alemoa para que embargassem o corte, juntamente com outros amigos. O embargo durou uns bons meses.
Em outra ocasião, participei de uma reunião com o novo responsável pela nova licença de corte para determinar as condições do corte e estipular critérios. Tive que me deslocar com outras pessoas para outra cidade para tal reunião.
Nessa reunião uma de minhas colaborações foi determinar que o corte seria restrito apenas a bolsões de árvores de acesso fácil, onde os caminhões não teriam que passar por cima de cursos de água. Isso restringiria a área de corte bastante e protegeria os rios da região.
Foi feito o documento com todas as condições e o dono da área deveria obedecer. E o poder público deveria fiscalizar, visto que o acesso a área privada é proibido e ninguém tem permissão de entrar lá.
Na época, também sugeri que o controle fosse feito por satélite. Que se usasse a tecnologia para fiscalização. Afinal, estávamos na cidade do INPE.
Confesso que encerrei minha participação no assunto “Terras da Alemoa” na feitura desse documento depois de anos envolvida no assunto.
Não havia mais nada que eu pudesse fazer.
Envelheci.
Hoje, a Andréia, minha empregada me pergunta se um político da cidade me telefonou me convidando para uma manifestação na praça.
- Que manifestação?
- Estamos sem água há dois dias.
- Por que? (Lembrem-se que eu tive que gastar uma fortuna abrindo um poço aqui em casa porque se recusaram a me fornecer água e hoje sou completamente independente em termos de água.)
- Estão cortando lá em cima e desbarrancou tudo. Entrou terra nos canos e entupiu toda a caixa d’água. Acabaram com o Rio das Couves. É só terra. E agora vem a Vanguarda (TV local da Globo) fazer uma reportagem na praça. Vai todo mundo. O F. falou que ia chamar você porque você sempre foi metida nessas coisas de ecologia e tem um jornal, para você participar.
- Ai, Andréia, desculpa mas eu não vou. Pode ir você. Sai mais cedo. E amanhã me conta como foi que eu coloco no jornal.
It’s too late.
Been there, done that.
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